segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Desafios Rio 2016


Maria Silvia Bastos: ‘É impossível não ter desafios, não incomodar’

Presidente da empresa olímpica municipal espera que o Rio saia das olimpíadas com mais força econômica


Entrevista com Maria Silvia, presidente da Empresa Olímpica Municipal Foto: O Globo / Marcelo Piu


Há um ano à frente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), onde trabalha nas negociações e no gerenciamento das obras vinculadas aos Jogos Olímpicos Rio 2016, a economista Maria Silvia Bastos Marques é pura ansiedade. Por suas mãos circulam planilhas de custos, plantas, croquis, pareceres e documentos de 235 projetos e subprojetos das Olimpíadas. A quatro anos dos Jogos, Maria Silvia diz que a preparação da cidade irá mexer com a rotina da população, mas para melhor. Ela espera que o Rio saia da experiência olímpica com mais autoestima e força econômica, sobretudo no turismo de negócios e lazer. Cobra, pórém, mais empenho do carioca no trato com o bem público.
Faltam quatro anos. Quais os principais desafios que a cidade terá que superar na organização do evento?
Nas palavras do prefeito (Eduardo Paes), todos. E ele tem razão. Esse é um trabalho conjunto: governos federal, estadual e municipal e comitê organizador. Mas são muitos os desafios. Todos os dias surgem questões. É natural que surjam. Meu lema é: “Se não incomodar, não está mudando”. Numa cidade como o Rio, onde moram seis milhões de pessoas, e que está sofrendo intervenções na cidade inteira, é impossível não ter desafios, não incomodar as pessoas. Em Londres foi diferente. O londrino não foi afetado no seu dia a dia (na preparação das Olimpíadas). Está sendo afetado agora, durante os Jogos. Mas as intervenções foram principalmente na região leste, onde foi erguido o parque olímpico.

As obras do Parque Olímpico já começaram?
De início, estamos fazendo as demolições e o começo das obras de infraestrutura. O cronograma de infraestrurura vai até o segundo trimestre do ano que vem. As instalações só começam a ser construídas no segundo semestre de 2013.

E as obras de instalações olímpicas que são de responsabilidade da PPP, já estão sendo executadas?
O consórcio está fazendo os projetos básicos e executivos. Para as pessoas começarem a ver as obras, só no ano que vem. O consórcio ficará responsável por toda a infraestrutura do Parque Olímpico, da Vila dos Atletas e do Parque Carioca (condomínio para onde vão os moradores da Vila Autódromo), por erguer os três halls do Centro Olímpico de Treinamento, um hotel de 400 quartos, pelo centro principal de mídia (MPC). O MPC será transformado depois num prédio de escritórios.

Você tem dito que, dos equipamentos olímpicos, o que tem sido mais difícil de negociar é o IBC. Por quê?
Porque ele é um prédio estranho. Quem viu o de Londres sabe. É muito pesado, com custo de construção alto, porque precisa suportar uma tonelagem muito grande de equipamentos. Tem caminhões que acessam, elevadores de cinco toneladas. Ele receberá os estúdios de televisão. É um prédio sem janelas, todo fechado. Uma caixa retangular imensa, de 70 mil metros quadrados. Queremos achar um uso para ele antes ainda dos Jogos. Ainda não temos isso. Ele pode virar uma série de coisas. A questão é o custo de adaptação posterior, que não é pequeno. Ele é um grande vão feito para ser usado pelas televisões num grande evento. Em Londres eles não têm ideia do que vão fazer com o deles. Chamam de “this is our problem building”. Não temos o custo dele ainda. Falar antes disso é leviano.

As obras do Parque Carioca já começaram? Quando se daria a remoção da Vila Autódromo?
Já estão fazendo as sondagens (no terreno) para começar as obras de infraestrutura. Não temos uma data da remoção. Mas não acontece antes de um ano ou um ano e meio. Enquanto não tivermos as casinhas prontas, bonitas e arrumadinhas, tudo certinho, não se fala nisso. Talvez até o fim do ano já tenhamos uma ideia (da remoção).

A esmagadora maioria das obras vinculadas ou não às olimpíadas tem prazo de conclusão previsto para dezembro de 2015. É uma data cabalística. Como deverá estar o Rio nessa época?
Lindo e maravilhoso! (risos) Eu sou uma pessoa ansiosa. Mas nunca fiquei tão ansiosa na minha vida. Deus me livre! É tão espetacular o que estamos vivendo no Rio... O Rio estava tão degradado por tanto tempo, esperamos por tanto tempo esses investimentos, não só os das Olimpíadas, mas os habitacionais. (Para acabar com o que) Nos envergonha há décadas, de pessoas morando em áreas de risco. Eu, como carioca, vim para esse projeto por causa disso. Para ter oportunidade de participar dessa transformação. Mas não depende só da prefeitura e dos governos. Depende das pessoas. Precisa mudar a atitude do carioca em relação a sua cidade. Não adianta tirar os recursos dos impostos que pagamos para fazer a renovação se as pessoas continuam maltratando a cidade. Quando viajamos, não vemos gari varrendo as ruas das grandes cidades. O lixo é recolhido de noite. E as cidades são limpas porque as pessoas não jogam lixo no chão. Aqui a gente passa na orla de Ipanema e Leblon às cinco da tarde de domingo e dá vontade de chorar, porque é uma imundície. As mesmas pessoas que jogam lixo na rua aqui não jogam na Disney ou em Paris.

Até lá, o carioca não vai ter um refresco? As intervenções não vão ficando prontas gradativamente?
Sim. O Transcarioca e o entorno do Maracanã ficam prontos para a Copa do Mundo. Como esses eventos todos terão quer ter testes, tanto de equipamentos como de esquemas de trânsito, a cidade vai se acostumar a lidar com isso.

Como o Rio deverá estar em 2017, depois dos Jogos?
Gostaria que a gente fosse uma cidade com autoestima muito grande, que profissionalizasse seus serviços. A gente tem potencial para ser uma cidade moderna, a número 1 do Brasil em turismo de negócios e lazer, com uma infraestrutura totalmente capacitada. Eu não tenho a menor dúvida de que vamos fazer ótimas Olimpíadas. Sabemos fazer e estamos apoiados pela estrutura de uma institutição: o Comitê Olímpico Internacional está fazendo uma transferência enorme de conhecimento. Mas temos que transformar nossa cidade para ter um Rio diferente em 2017. Com a rede municipal ensinando inglês, com os jovens mais capacitados; sendo uma cidade com visibilidade internacional maior, tendo um turismo qualificado. Barcelona aumentou o número de turistas internacionais de dois milhões para sete milhões anuais, 20 anos depois. O Brasil recebe pouco mais de cinco milhões de turistas internacionais ao ano. Turismo é a indústria que mais emprega no mundo. Quando falamos de turismo, falamos uma indústria intensiva de pessoas. Precisamos capacitar as pessoas.



Comentário:
De acordo com a economista Maria Silvia Bastos Marques, o Rio, embora tenha bastante potencial, enfrentará grandes desafios para que as Olimpíadas de 2016 sejam um evento de sucesso. Tempo e dinheiro são dois dos principais fatores desse desafio. Além disso, a postura do povo carioca em relação às obras e ao bem público em geral preocupam a especialista. Muito além da infra-estrutura, a receptividade do povo brasileiro será um dos fatores decisivos para o sucesso do evento em 2016.


Postado por: Carolina Sotto Mayor Barreto

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