Maria Silvia Bastos: ‘É impossível não ter desafios, não incomodar’
Presidente da empresa olímpica municipal espera que o Rio saia das olimpíadas com mais força econômica
Há um ano à frente da Empresa Olímpica Municipal (EOM), onde trabalha
nas negociações e no gerenciamento das obras vinculadas aos Jogos
Olímpicos Rio 2016, a economista Maria Silvia Bastos Marques é pura
ansiedade. Por suas mãos circulam planilhas de custos, plantas, croquis,
pareceres e documentos de 235 projetos e subprojetos das Olimpíadas. A
quatro anos dos Jogos, Maria Silvia diz que a preparação da cidade irá
mexer com a rotina da população, mas para melhor. Ela espera que o Rio
saia da experiência olímpica com mais autoestima e força econômica,
sobretudo no turismo de negócios e lazer. Cobra, pórém, mais empenho do
carioca no trato com o bem público.
Faltam quatro anos. Quais os principais desafios que a cidade terá que superar na organização do evento?
Nas
palavras do prefeito (Eduardo Paes), todos. E ele tem razão. Esse é um
trabalho conjunto: governos federal, estadual e municipal e comitê
organizador. Mas são muitos os desafios. Todos os dias surgem questões. É
natural que surjam. Meu lema é: “Se não incomodar, não está mudando”.
Numa cidade como o Rio, onde moram seis milhões de pessoas, e que está
sofrendo intervenções na cidade inteira, é impossível não ter desafios,
não incomodar as pessoas. Em Londres foi diferente. O londrino não foi
afetado no seu dia a dia (na preparação das Olimpíadas). Está sendo
afetado agora, durante os Jogos. Mas as intervenções foram
principalmente na região leste, onde foi erguido o parque olímpico.
As obras do Parque Olímpico já começaram?
De
início, estamos fazendo as demolições e o começo das obras de
infraestrutura. O cronograma de infraestrurura vai até o segundo
trimestre do ano que vem. As instalações só começam a ser construídas no
segundo semestre de 2013.
E as obras de instalações olímpicas que são de responsabilidade da PPP, já estão sendo executadas?
O
consórcio está fazendo os projetos básicos e executivos. Para as
pessoas começarem a ver as obras, só no ano que vem. O consórcio ficará
responsável por toda a infraestrutura do Parque Olímpico, da Vila dos
Atletas e do Parque Carioca (condomínio para onde vão os moradores da
Vila Autódromo), por erguer os três halls do Centro Olímpico de
Treinamento, um hotel de 400 quartos, pelo centro principal de mídia
(MPC). O MPC será transformado depois num prédio de escritórios.
Você tem dito que, dos equipamentos olímpicos, o que tem sido mais difícil de negociar é o IBC. Por quê?
Porque
ele é um prédio estranho. Quem viu o de Londres sabe. É muito pesado,
com custo de construção alto, porque precisa suportar uma tonelagem
muito grande de equipamentos. Tem caminhões que acessam, elevadores de
cinco toneladas. Ele receberá os estúdios de televisão. É um prédio sem
janelas, todo fechado. Uma caixa retangular imensa, de 70 mil metros
quadrados. Queremos achar um uso para ele antes ainda dos Jogos. Ainda
não temos isso. Ele pode virar uma série de coisas. A questão é o custo
de adaptação posterior, que não é pequeno. Ele é um grande vão feito
para ser usado pelas televisões num grande evento. Em Londres eles não
têm ideia do que vão fazer com o deles. Chamam de “this is our problem
building”. Não temos o custo dele ainda. Falar antes disso é leviano.
As obras do Parque Carioca já começaram? Quando se daria a remoção da Vila Autódromo?
Já
estão fazendo as sondagens (no terreno) para começar as obras de
infraestrutura. Não temos uma data da remoção. Mas não acontece antes de
um ano ou um ano e meio. Enquanto não tivermos as casinhas prontas,
bonitas e arrumadinhas, tudo certinho, não se fala nisso. Talvez até o
fim do ano já tenhamos uma ideia (da remoção).
A
esmagadora maioria das obras vinculadas ou não às olimpíadas tem prazo
de conclusão previsto para dezembro de 2015. É uma data cabalística.
Como deverá estar o Rio nessa época?
Lindo e maravilhoso!
(risos) Eu sou uma pessoa ansiosa. Mas nunca fiquei tão ansiosa na
minha vida. Deus me livre! É tão espetacular o que estamos vivendo no
Rio... O Rio estava tão degradado por tanto tempo, esperamos por tanto
tempo esses investimentos, não só os das Olimpíadas, mas os
habitacionais. (Para acabar com o que) Nos envergonha há décadas, de
pessoas morando em áreas de risco. Eu, como carioca, vim para esse
projeto por causa disso. Para ter oportunidade de participar dessa
transformação. Mas não depende só da prefeitura e dos governos. Depende
das pessoas. Precisa mudar a atitude do carioca em relação a sua cidade.
Não adianta tirar os recursos dos impostos que pagamos para fazer a
renovação se as pessoas continuam maltratando a cidade. Quando viajamos,
não vemos gari varrendo as ruas das grandes cidades. O lixo é recolhido
de noite. E as cidades são limpas porque as pessoas não jogam lixo no
chão. Aqui a gente passa na orla de Ipanema e Leblon às cinco da tarde
de domingo e dá vontade de chorar, porque é uma imundície. As mesmas
pessoas que jogam lixo na rua aqui não jogam na Disney ou em Paris.
Até lá, o carioca não vai ter um refresco? As intervenções não vão ficando prontas gradativamente?
Sim.
O Transcarioca e o entorno do Maracanã ficam prontos para a Copa do
Mundo. Como esses eventos todos terão quer ter testes, tanto de
equipamentos como de esquemas de trânsito, a cidade vai se acostumar a
lidar com isso.
Como o Rio deverá estar em 2017, depois dos Jogos?
Gostaria
que a gente fosse uma cidade com autoestima muito grande, que
profissionalizasse seus serviços. A gente tem potencial para ser uma
cidade moderna, a número 1 do Brasil em turismo de negócios e lazer, com
uma infraestrutura totalmente capacitada. Eu não tenho a menor dúvida
de que vamos fazer ótimas Olimpíadas. Sabemos fazer e estamos apoiados
pela estrutura de uma institutição: o Comitê Olímpico Internacional está
fazendo uma transferência enorme de conhecimento. Mas temos que
transformar nossa cidade para ter um Rio diferente em 2017. Com a rede
municipal ensinando inglês, com os jovens mais capacitados; sendo uma
cidade com visibilidade internacional maior, tendo um turismo
qualificado. Barcelona aumentou o número de turistas internacionais de
dois milhões para sete milhões anuais, 20 anos depois. O Brasil recebe
pouco mais de cinco milhões de turistas internacionais ao ano. Turismo é
a indústria que mais emprega no mundo. Quando falamos de turismo,
falamos uma indústria intensiva de pessoas. Precisamos capacitar as
pessoas.
Comentário:
De acordo com a economista Maria Silvia Bastos Marques, o Rio, embora tenha bastante potencial, enfrentará grandes desafios para que as Olimpíadas de 2016 sejam um evento de sucesso. Tempo e dinheiro são dois dos principais fatores desse desafio. Além disso, a postura do povo carioca em relação às obras e ao bem público em geral preocupam a especialista. Muito além da infra-estrutura, a receptividade do povo brasileiro será um dos fatores decisivos para o sucesso do evento em 2016.
Postado por: Carolina Sotto Mayor Barreto
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